11/12/10

24 De Dezembro (1991 ou 92 não tenho certeza do ano)

Foi a primeira consoada fora da família de sangue.
Era o Armando Carvalheda director de programas, na rifa calhou-me a noite de consoada. Depois de comer apressadamente em casa, lá fui eu carregada de LP’S para a estrada da baixa de Palmela, de serviço na redacção estava a Adelaide Coelho (grande amiga para uma noite especial). O farnel ia no Renult 5 do meu pai. Mesa posta na redacção, emissão no ar. Na mala do vinil constava um 33 rotações fantástico, um Duplo MiX de música, cada lado do vinil durava aproximadamente 24 minutos, dava quase para 2 horas. Tudo estrategicamente montado e combinado com a Adelaide Coelho, emissão “normal” até às 23, a partir daí os MIXES entravam em circulação, ia ao estudio de 23 em 23 minutos. As sonoras gargalhadas coloríamos o ambiente da fria casa… “As espertas” ludibriavam os demais, sentadas na redacção contando historias, gargalhando comendo… até que percebemos que nenhuma das duas tinha levando copos. A Garrafa de whisky olhava para nós, as nossas gargantas secas de tanto rir e falar, pediam um pouco de líquido. Que fazemos? … …
Que fazemos? … Arrombamos bar da Isabel? Não! Sempre doidas mas muito sensatas sabíamos se o fizéssemos, teríamos problemas, perceberiam que precisávamos dos copos para beber em serviço. Uma de nós; sinceramente não me recordo quem teve a ideia, o que sei é que ambas concordámos. Em papel fizemos canudos para beber o whisky, ate o papel ficar ensopado, dava para beber uns bons golos. O que não sabíamos é a beber assim o “estalo” era assumidamente maior. Faltavam poucos minutos para a meia- noite, a garrafa de whisky já passava de meio. Quando eu ia ao estudio confesso que tinha dificuldade em articular as palavras, a concentração para aquele comento era imensa estava bem “almariada” … ai se estava.
O Telefone preto toca (lembram-se do telefone  )… olhámos uma para a outra … quem será a esta hora?
Eu com ar sério, atendo …. Do outro lado da linha oiço a voz do Armando, rapidamente fiquei sóbria, ai… pensei, vai falar-me do mix que está no ar! Vai perceber que a dicção podia estar mais aberta, vou passar mais 2 semanas com um lápis na boca para abrir a mandíbula.
Tal não é o meu espanto… do outro lado… oiço um franco Feliz Natal e um elogio ao programa… não esqueço a frase…. «…Lena estás a fazer uma emissão muitooo boa…. Parabéns… »
Quando desliguei a chamada não preciso escrever o que se passou?
Eu e a Adelaide rimos tantoo mas tantooo… escusado será dizer que a garrafa de whisky foi vazia para o Renult 5 (claro, não deixámos rastos)
Foi uma noite e tanto de Natal… Só hoje percebo a riqueza desse momento de puro convívio… Foi a única noite de Natal que trabalhei ao microfone. Noite essa que recordo todos os anos, quando estou sentada junto à família na consoada!
Bom Natal a Todos! Amigos que a Azul uniu!
Para ti Adelaide um grande beijo… foste uma grande companheira de Natal…………..

09/12/10

Palavrinhos e véspera de Natal

Véspera de Natal, início da tarde, nos - então - novíssimos estúdios da Rádio Azul (1986). Damo-nos conta que não tínhamos nada alusivo à quadra, para o nosso programa de informação, Gazeta da Tarde. Num ápice e com meia duzia de telefonemas, chama-se toda a redacção à base, onde só estavamos de serviço eu e o Jorge Simões. Redacção reunida, definem-se estratégias. Vai tudo para rua fazer reportagens, exceptuando os dois que estavam na escala. Coube-me fazer noticiários e a própria Gazeta, enquanto que o Jorge Simões (que ainda por cima precisava de sair mais cedo) iria gravar rm's. Os outros companheiros iriam conciliar as reportagens com as compras (de última hora) de Natal.
A tarde avançou no tempo, o Jorge saiu deixando algumas rm's prontos para irem para o ar e de repente fiquei sozinha. Com um programa de uma hora para fazer e sem saber muito bem o que fazer. O material disponível daria para quinze ou vinte minutos. Às 19h entrei no ar. Angustiada! Ninguém dava sinal de vida, ninguém chegava com reportagens e o material estava rapidamente a esgotar-se.
Passava o penúltimo "rm" disponível e de repente, todos os repórteres invadem o estúdio e em vez de começarem a montar o material, resolveram mostrar-me o que tinham feito. Todos ao mesmo tempo! O "rm" que estava no ar, estava a acabar e... acabou. Gritei pelo intercomunicador para o técnico "cola a publicidade" e na precipitação abri o microfone enquanto dizia "despachem-se p..., vão montar essas coisas, m..., eu ouço tudo quando estiver a passar... p..., despachem-se!" E fiquei por aqui, quando me dei conta das expressões de espanto dos meus colegas. Estava sem "phones" e não me dei conta que tudo o que eu tinha dito, tinha saído na antena!
(...)
O meu desabafo surtiu alguns efeitos. Os repórteres foram todos para a redacção tratar das reportagens que por artes mágicas começaram a entrar em tempo recorde.
No final do programa, fiquei a saber que, por causa dos "palavrinhos" que eu tinha proferido em directo, o policia sinaleiro da Avenida dos Combatentes, esteve prestes a ser atropelado. Pela Mila de Matos (directora comercial da R.A.). Quando ouviu o meu primeiro desabafo, achou que não tinha ouvido bem e procurou sintonizar o rádio. Com o carro em andamento e felizmente que seguia devagar. Quando confirmou que era mesmo eu que estava a desabafar também se deu conta que ou travão a fundo, ou policia atropelado. Abençoado travão!

N.B. No dia do jantar dos 25 anos da rádio, comentei esta história com algumas pessoas. Entre elas o Luís Monteiro e o João Melo. E comentei também que - à excepção da Mila - mais ninguém me chamou para atenção para os desabafos em directo. Resposta do João Melo: "Só disseste isso? Claro que ninguém ralhou contigo, ora! Esses palavrões eram pacíficos comparados com os que muito boa gente proferiu, de microfone aberto!".

A consoada do silêncio

Foi o único Natal da minha vida em que comi o bacalhau da consoada sozinha.
A família juntou-se à mesa quando eu ainda estava na Rádio, a fazer as habituais duas horas de "Divagando". Era a última noite em que íamos para o ar, antes do encerramento obrigatório das rádios locais.
Entre os temas musicais seleccionados com um muito especial cuidado, li um poema que perguntava "E quando não for Natal?", passei a versão Disney do "Conto de Natal", de Charles Dickens...e «vinguei-me» do que estava a acontecer, lendo um artigo de Fernando Dacosta sobre "a matança dos inocentes" (nós!) que terminava assim: "Cavaco Silva parece, em termos culturais, ter vocação de Herodes."
Depois, com um instrumental de "Je ne regrette rien" por fundo, comentei que não lamentava realmente nada ter, um dia, aceite o convite que me foi feito pelo Jorge Simões e ter ido parar à Rádio Azul.
"Estou a deixar-me levar pelo sentimento, mas neste momento apetece-me de facto formular os meus votos de um Feliz Natal a todos os colegas que aqui passaram: a Paula Belchior, o Pedro Brinca, a Adelaide Coelho, o Paulo Sérgio e tantos, tantos outros..."

Foi assim, a 24 de Dezembro de 1988, como atesta a gravação que fiz e guardei religiosamente.
Vinte e dois anos mais tarde, renovo os votos de um Feliz Natal a todos os que preservam no coração este Azul (Com)passado.

Dina Barco

Uma história de Natal

Estamos a aproximar-nos da época do Natal e esta história tem de ser contada aqui.
Na redacção da Azul, as escalas eram feitas, nesta época do ano, tendo em conta que quem trabalhava no Natal não trabalhava no Ano Novo ou na Passagem de Ano e vice-versa.
Como eramos uma equipa solidária estas coisas eram sempre decididas "democraticamente" através de um sorteio, mas contando nestes sorteios com a boa vontade de uns e outros.
No ano em questão coube-me a mim e à Adelaide a emissão do dia 25. Passámos a tarde do dia de Natal na rádio. A emissão seguia só até às 21 horas, ou seja, não havia as 24 horas por dia como nos restantes dias do ano.
A redacção e a rádio em geral estavam carregadas de bolo-rei, filhoses, sonhos e outros mimos que nós levavamos e que os ouvintes nos ofereciam. Havia obviamente também uma ou outra garrafita de moscatel, mas tenho de garantir que não foi o moscatel que esteve na origem da despedida da Adelaide no noticiário das 21 horas.
Depois de dar conta da actualidade da cidade, do país e do mundo, a madrinha de metade dos jornalistas que passaram por aquela redacção brinda os ouvintes com o "Desejo de um Bom Natal cheio de restos!"

25/11/10

Noites em Branco

Penso que estávamos em 1992. Houve uma fase em que as madrugadas ao fim de semana eram apenas musicais. Música a metro, nada de notícias nem "papagaios". O técnico assegurava a continuidade. Havia publicidade a todas as horas, no bloco do sinal horário. Era assim da uma às sete da manhã. Uma seca.
Houve uma (sim foi apenas uma) madrugada... eram 3 ou 4 da manhã... um "diabinho" desafiou-me: «não metas a publicidade... ninguém ouve...» e deixei-me levar pela tentação. Desliguei o gerador do sinal horário e não pus publicidade. Estava a gravar cassetes para mim.
Cerca duns 10 min depois da hora toca a campainha... Vou espreitar à janela. Lá fora, da porta da rádio encaminha-se para a janela da régie um senhor baixinho, gordo e bigode que me pergunta com um ar muito sério qualquer coisa como «Então não há sinal horário?» Atrapalhado, desfiz-me em desculpas embora aquele senhor - à altura - não tivesse nada a ver com a Rádio Azul. Porra! Logo na única vez em que me baldei tinha que haver alguém a ouvir! Fiquei a pensar com os meu botões que a voz daquele gajo era-me familiar. Nahhh... não podia ser quem eu pensava... Poucos dias depois saía uma informação interna a dar conta de que o AC era o novo director de programas. Quem não podia ser afinal era.

12/10/10

Tractor

Creio ter sido no segundo mandato do professor Mata Cáceres na câmara de Setúbal, que a cidade recebeu uma dose generosa de alcatrão... O presidente andava tão entusiasmado que só falava no assunto. Em todas as entrevistas, todas, mesmo que o tema fosse outro.
Num evento cultural, a coisa repetiu-se. A Fernanda Matos chegou à redacção e muito apreensiva disse-me:"Adelaide, não sei o que fazer com isto. O presidente só falou do alcatrão!".
Já um bocadinho irritada, teci uns comentários que não vale a pena repetir e terminei: "Vai ficar para a História, como o Manel do Alcatrão!".
Na redacção, para além dos jornalistas, estavam uma conhecida figura da politica (oposição) e um actor do TAS (Teatro de Animação de Setúbal). Na entrevista daí a alguns minutos, em directo, a ilustre figura política teceu - para não variar - duras críticas ao presidente e - despudoradamente - apossou-se do meu desabafo sobre o alcatrão e disse-o como sendo dela. Para a coisa ser perfeita, o actor do TAS também criou uma rábula sobre o mesmo assunto. Tempos mais tarde, o presidente deu-me a entender, em conversa meramente informal, que não tinha gostado muito da história.
Sem coragem para confessar a autoria da carinhosa alcunha e já que o autarca estava prestes a fazer anos, propus à redacção a oferta de um miminho... um tractor em miniatura. Que segundo sei, adorou! Espero que também goste desta história... quase vinte anos depois!
Um beijinho, professor Mata Cáceres, com todo o respeito

Adelaide

10/10/10

Afluentes…

Uma noite chegou de uma reportagem, tão mansinha que pensei que algo menos bom tinha acontecido. Não exteriorizou absolutamente nada, não resmungou, nem disse um único palavrão! Hum… cada vez mais estranho! Perguntei se tinha corrido tudo bem e respondeu que sim… sem a “festa” do costume. Enclausurou-se no mini estúdio e foi montar a peça. Quando saiu, tinha um brilhozinho nos olhos. Um brilhozinho diferente, a raiar a emoção. Os olhos da “neófita” Natália mostravam bem que o rio Sado iria ganhar dois afluentes a qualquer instante…A Natália Abreu tinha entrevistado Álvaro Cunhal. E, naturalmente, ficou comovida. Entrevistar a História comove e dá uma preciosa ajuda no processo de crescimento…

Beijinhos, na catedral dos afectos